For Mamma – Demaryius Thomas

Saudações, nobre torcedor. Você conhece a condição na qual nosso wide receiver Demariyus Thomas cresceu? Nosso amigo João Pedro Bucchi, do grupo do facebook, nos trouxe a tradução do texto que Thomas escreveu ao site The Players Tribune, em 16 de Novembro de 2015, onde o próprio jogador nos conta um pouco de sua história e as dificuldades que enfrentou antes de se tornar uma estrela da NFL. Vamos acompanhar?


As garrafas de refrigerante amassadas estavam por toda parte. Foi aí que eu comecei a ter um mal pressentimento. Toda vez que eu saía lá fora para brincar no quintal, haviam garrafas por todo o gramado. Quando eu era bem pequeno, costumava pensar “Mas por que todo mundo bebe tanto refrigerante?”

Eles estavam usando as garrafas para fumar crack.

Existia um pequeno trailer atrás de onde eu morava e as pessoas iam e viam de lá. Minha mãe e minha avó iam lá. Elas sempre me disseram para ficar longe daquele trailer. Eu sabia o que estava acontecendo. Eu sabia que era minha avó quem coordenava tudo. Mas eu fingia que não. Eu só fazia de conta que não estava acontecendo nada.

Mas uma noite, quando eu tinha 11 anos, eu tive um pesadelo.  Eu disse para minha mãe, “Eu sinto que algo terrível vai acontecer.”

Eu era o garotinho da mamãe. Eu nasci quando ela tinha apenas 15 anos, então nós tínhamos idade até para jogar basquete um contra o outro. Costumávamos jogar um contra um, e correr pelo gramado o tempo todo. Eu vou te poupar dos detalhes sobre o lugar onde a gente cresceu. Você já conhece essa história. Minha mãe estava fazendo o que ela achava que precisava fazer para sobreviver.

Mas eu estava com aquele sentimento ruim.

“Mamãe, algo ruim vai acontecer.”

Ela me disse que tudo ficaria bem.

E alguns meses depois … BOOM.

O som mais alto que eu já ouvi. Eu estava dormindo na porta ao lado quando aqueles homens entraram. Eram 7 da manhã, pouco antes da aula. A primeira coisa que eu vi ao abrir os olhos foram armas apontadas para mim. Armas grandes. Como a gente vê nos filmes. Eu não sabiam que eles eram policiais. Eu só vi as armas e os pontos vermelhos piscando. Eles mandaram eu me abaixar.

Eu me joguei no chão e eles entraram no quarto da minha mãe e meu padrasto. Eles os trouxeram pra fora, algemados.

Enquanto eles estavam levando eles para fora de casa, minha mãe disse, “Será que eu posso apenas levar meus filhos no ônibus escolar por uma última vez?”

Foi aí que eu entendi. Quando ouvi isso, mesmo aos 11 anos, percebi que eu não veria minha mãe por um longo, longo tempo. Era real. Ela implorou aos policiais, e eles concordaram em deixar ela nos levar ao ponto de ônibus. Quando o ônibus chegou, todas as crianças viram os policiais que nos cercavam. Minha mãe nos deu um beijo na bochecha e acenou um adeus.

Foto: For Mamma – The Player’s Tribune

A primeira coisa que as crianças disseram quando eu entrei no ônibus foi “Awwww, vocês fizeram algo de errado!” Elas começaram a pegar no meu pé logo ali. Você sabe como são crianças. Pela janela, eu vi minha mãe sendo levada no carro de polícia.

Eu sentei naquele ônibus e disse pra mim mesmo: Mantenha isso dentro de você. Não deixe eles verem.

Meu pai era militar. Minha mãe, meu padrasto e minha avó estavam todos presos. Daquele dia em diante, eu era basicamente um órfão. Eu cheguei em casa naquele dia e pense: “Pra onde eu vou, agora?” Eu tinha 11 anos, então eu não poderia trabalhar, e eu ainda tinha que dar um jeito de tomar conta das minhas irmãs. Eu disse pra mim mesmo que eu iria conseguir uma bolsa de estudos e um diploma, para tomar conta da minha família. Antes disso, eu tinha que fazer o que fosse possível. Nós morávamos no interior da Georgia. E a parte boa disso era que por lá você sempre pode conseguir algum dinheiro trabalhando com suas mãos.


Era tudo muito solitário, e eu não fazia ideia do que faria com minha vida, ou o que eu seria dentro de alguns anos. Tinha vezes que eu chorava a noite toda.

Então eu comecei a colher milho e ervilha. Sério, esse era meu trabalho. Eu costumava acordas as 6 da manhã e fazer antes de ir pra escola. É trabalho pesado. Onde eu cresci, era bem fácil se meter em situações estúpidas. Eu tive uma escolha: o jogo das drogas, ou o jogo do milho. Eu vivia pensando: só não estrague suas chances de ir pra faculdade. Era nisso que eu estava focado.

Eventualmente, minha mãe foi mandada para a prisão, em Tallahassee, na Flórida. Durante anos, eu não pude nem visitá-la. A estabilidade a que eu me acostumei se fora. Sei que parece loucura, com toda história de drogas e tudo o mais, mas era um tipo de estabilidade. Depois que minha mãe se foi, o mundo ficou muito vazio. Eu ficava na casa de quem quer que não se zangasse comigo naquela semana. Tios e tias, a mãe de meu pai, tanto fazia. Eu não tinha nada. Se a casa pegasse fogo, eu não teria nada o que pegar, de verdade. Talvez um par de sapatos… Eu lembro que tinha apenas 3 calças jeans que eu trocava.

Era tudo muito solitário, e eu não fazia ideia do que faria com minha vida, ou o que eu seria dentro de alguns anos. Tinha vezes que eu chorava a noite toda.

Na verdade, eu vou para você, e para todas as crianças lá fora que estão lendo isso, e que estejam em situações similares. Mesmo quando eu entrei para a NFL, eu chorava algumas noites pensando na minha mãe, imaginando se ela seria libertada algum dia.

Foto: For Mamma – The Player’s Tribune

Não há dinheiro, fama ou nada nesse mundo que possa substituir sua mãe. Eu percebi que segurar tudo isso comigo, não era bom pra mim, e então eu conheci um pastor que realmente me ajudou a falar sobre isso. As pessoas pensam que órfãos são apenas as crianças na qual os pais morreram, mas 80 dos órfãos no mundo tem pelo menos um dos pais vivos, em algum lugar. Existem milhões de crianças como eu era, somente nos EUA, e centenas de milhões pelo mundo todo.

Nós dependemos da bondade e dos tetos dos outros para sobreviver, dia após dia. Eu tive vários treinadores no high school que se preocuparam comigo. Vários treinadores na universidade. Bispos, pastores, tios, tias, amigos. Se ao menos uma dessas pessoas não tivesse me ajudado, será que você ao menos saberia o meu nome? Talvez não.

Eu converso com várias crianças que tem os pais na prisão, ou que foram abandonadas por uma razão ou outra. Eu conheço a raiva, a dor, o medo. Especialmente a solidão. Tudo o que elas querem é alguém que diga, “Eu me importo com você.” Mas isso não acontece muito, e elas acabam se metendo em confusão.

Como homens, como atletas principalmente, a gente não gosta de falar sobre amor. A gente fala sobre lealdade, irmandade e tudo isso, mas não de amor. Mas essa é a coisa mais importante na vida de uma criança. Mais importante do que o tipo de escola que você frequenta, ou o tipo da vizinhança em que você vive, ou mesmo se você cresce no meio das drogas ou violência. Se você é amado, você dá um jeito.


Como homens, como atletas principalmente, a gente não gosta de falar sobre amor. A gente fala sobre lealdade, irmandade e tudo isso, mas não de amor. Mas essa é a coisa mais importante na vida de uma criança.

Durante 15 anos, minha mãe se foi. Ela já estava na prisão antes mesmo de eu começar a treinar futebol americano. Ela nunca chegou a me ver entrando nos gramados. Não viu eu me formar no high school, nunca viu o quanto eu ralei para chegar até a universidade de Georgia Tech e nunca reclamou, nunca desistiu. Eu não tinha muito em que me apoiar,  exceto que eu sabia que ela tinha orgulho de mim.

Neste verão, eu estava de volta na Georgia quando tive a notícia. Presidente Obama reduziu a sentença de 46 casos de drogas não violentos, e minha mãe era um deles. Finalmente ela estaria livre, conseguiria me ver jogando futebol americano, pela primeira vez na NFL. Ela assistiu a primeira vez que eu joguei o Super Bowl pela TV, na prisão. Quando eu tive a notícia, eu pensei, “Cara, finalmente vou poder vê-la sentando na arquibancada e vestindo uma jersey dos Broncos.”

Foto: For Mamma – The Player’s Tribune

Eu não conseguia compreender isso. Eu ainda não consigo.

Recentemente, tenho recebido bastante perguntas sobre minha mãe. É um pouco demais. A história dela é complicada. Mas eis o que eu quero que você saiba sobre minha mãe: Ela me amou. Essa é a coisa mais importante no mundo.

Minha mãe finalmente conseguiu sua liberdade na semana passada. Ela está impedida de viajar por 60 dias, então ainda terei que esperar um pouco pra que ela possa me ver jogar das arquibancadas. Mas não é isso que importa. O importante é que eu vou ganhar um abraço de mãe mais uma vez. Eu posso ligar pra ela quando eu quiser, agora. Não preciso mais esperar pra ela me ligar. É uma coisa pequena, mas significa tanto pra mim. Ela ganhou um celular pela primeira vez. A gente tem conversado bastante. Ela diz que ainda quer apostar corridas, ela diz que ainda pode me vencer.

Outro dia, estávamos conversando sobre o que ela queria fazer quando saísse de lá, e ela me disse, “Sabe o que eu quero? Eu quero um walkman.” Me fez perceber o quanto tempo perdemos juntos.

Temos muita coisa pra por em dia, mamãe. Eu te amo!


E aí torcedor, o que achou da história de Thomas? Já conhecia?
#GOBRONCOS