Não odeiem Brock Osweiler

Não odeiem Brock Osweiler

Olá, amigo leitor e torcedor do Denver Broncos. Se você estava em coma, ou viajando pela galáxia ontem, Brock Osweiler não é mais quarterback do Denver Broncos. O garoto Cullen decidiu trocar as Montanhas Rochosas para estar mais próximo do centro espacial no primeiro dia de Free Agency, mas isso não é motivo para odiá-lo. Afinal de contas, a questão dele vai além do dinheiro.

As Razões para a Saída de Brock Osweiler

Certo, gostaria de propor um exercício a vocês. Imaginem-se trabalhando para uma grande empresa de eletrônicos. Uma multinacional famosa no mundo. Vamos chamar essa empresa de Maçã Ltda. Como funcionário da grande Maçã, você trabalha sob um medalhão. Um cara que está no ramo há anos, e é respeitado por tudo. Só que ele não consegue mais fazer o trabalho direito, e, no meio de um grande projeto no qual ele trabalhava, ele tem um colapso. Bem, você trabalha para a empresa, e é o assistente dele, então sua função é substituí-lo no projeto. Você o faz. Tem um ou outro problema, natural para quem é novo no ramo, mas você tem experiência de uns anos sob ele, então você consegue fazer seu trabalho. Mais que isso, você faz seu trabalho melhor do que o medalhão vinha fazendo, otimizando os processos.

Só que quando falta uma semana para o projeto ser entregue, a equipe que trabalha com você começa a procrastinar. Eles demoram com os prazos, parece que perderam a vontade e o interesse. Aí, o medalhão volta, manda todo mundo trabalhar, e o projeto é entregue. Sucesso. Palestras, congressos, apresentações em grandes feiras de eletrônicos. O medalhão está lá. Ele é a cara do projeto. O projeto que você trabalhou duro para melhorar. Você recebe um ou outro tapinha nas costas. Mas é só dele que falam.

Pouco tempo depois, o medalhão anuncia que vai se aposentar. Aquele projeto foi o último grande que ele iria assumir. Sendo assim, ele te recomenda para a Maçã, e você está prestes a ser promovido. Enquanto isso, uma concorrente da grande Maçã, que aqui vamos chamar de Janela SA, ouviu da sua participação no projeto, e de suas ideias inovadoras. Eles te oferecem um salário 10% maior do que você ganharia com sua promoção na Maçã.

Você ainda está chateado por terem tirado seu brilho. Magoado por não terem dado o crédito que você julgava merecer, depois de tantos anos trabalhando duro para mostrar seu valor. Depois de pensar muito, especialmente porque já tinha feito amizades e já tinha a sua rotina estabelecida, você pede demissão da Maçã Ltda, e vai trabalhar na Janela SA.

Pode ser falado o que for, mas essa foi uma razão para Brock decidir sair de Denver. Ele se chateou por ter sido colocado no banco. “Mas era Peyton Manning.” Para ele, isso não importava. Ele acredita que era o melhor para a equipe, e sente que teve suas glórias roubadas dele. Prova disso é que havia duas semanas que ele não atendia ou retornava ligações dos técnicos ou companheiros de time.

Mas pode haver algo ainda mais profundo que isso. Pode não ser apenas birra. E isso pode ser encontrado nas palavras dele:

Foi muito difícil sair de Denver. Eu estaria mentindo se dissesse o contrário. Passei ótimas quatro temporadas em Denver. Esses quatro anos ficarão guardados fundo no meu coração para sempre. Mas vir a Houston era uma oportunidade que eu não poderia deixar passar. Esta é uma organização que está prestes a fazer algo grande, e eu quero ser parte disso.

Prestem bem atenção à última frase dele. Essa pode ter sido a principal razão para Brock ter escolhido trocar Denver por Houston.

O Denver Broncos é nada mais, nada menos, que a franquia mais vitoriosa dos últimos 40 anos. Empatados com o Pittsburgh Steelers, nós temos 406 vitórias nessas 40 temporadas, uma média de 10.15 vitórias por temporada. Nossa franquia já foi palco de lendas que estão eternizadas nos nossos corações. Terrell Davis, Steve Atwater, Shannon Sharpe, Champ Bailey, além da Orange Crush.

E se formos falar de quarterbacks, estamos junto com 49ers e Packers como talvez as únicas franquias a terem tido dois dos dez melhores QBs de todos os tempos. John Elway encerrou sua carreira dono de todos os principais recordes da liga. Peyton Manning fez o mesmo, 17 anos depois. É difícil demais você fazer história quando são os sapatos desses gigantes que você tem que preencher.

Agora, comparem isso com o Houston Texans. Um time que, em seus 14 anos de existência (o mais novo da NFL), não chegou às 100 vitórias ainda. Um time que, desde que surgiu na NFL, assim como Brock Osweiler, ficou à sombra de Peyton Manning. Que, sem Manning, conseguiu suas primeiras duas participações em playoffs, ficou mais dois anos de fora, graças ao sucessor dele, Andrew Luck, e que viu sua última temporada, na qual finalmente voltou à pós-temporada, ruir depois de um humilhante 30 a 0.

Um Houston Texans que tem em sua cara um jogador defensivo, JJ Watt, e cujo melhor QB na história foi Matt Schaub. Mas que ano passado teve a oitava melhor defesa da liga, de acordo com o Football Outsiders, sétima melhor defesa em jardas, terceira melhor contra o passe. Um ataque que tem uma boa linha ofensiva, coisa que Osweiler não teve em Denver, com boas armas no jogo aéreo e um bom RB chegando, em Lammar Miller. Brock tem razão. Se com quatro quarterbacks diferentes como titulares, esse time conseguiu chegar aos playoffs, imagina com um bom QB.

A torcida do Texans está em delírio, basta checarem nos sites deles. Eles finalmente confiam que terão um bom QB.

Para alguém que é um competidor nato, para alguém que é competitivo demais, e que realmente gosta de jogar o esporte que joga, a oportunidade de virar uma lenda é muito para passar. Ele pode falhar grotescamente. Pode ter o mesmo destino de Matt Flynn, e tantos outros QBs backups que viraram titulares e sumiram depois.

Mas a chance está lá. E é uma chance boa demais para deixar passar. Ter a oportunidade de ver sua jersey aposentada um dia, de haver pessoas usando-a 20 anos depois que você se aposentou, de ser amado e adorado por toda a eternidade. Quem não gostaria de ter um legado desses? E claro, 72 Milhões de dólares também ajudam bastante, mas, como acredito ter conseguido mostrar, não são, nem de longe, a razão principal.

Eu queria muito que Brock tivesse continuado. Acredito que, com algum polimento, ele pode ser a cara de uma franquia, e nós investimos quatro anos nele. Mas ao mesmo tempo, estou aliviado. A oferta que ele recusou do Broncos pagaria $16.5 M por ano, e, como já disse antes, não acho que ele valha tudo isso, muito menos os $18 M por ano que o Texans pagou.

Agradeço a Brock pelas vitórias que ele teve, especialmente contra o Patriots. Aquele touchdown para virar o jogo me fez pular do sofá, gritar e acordar todos os meus vizinhos no meio da madrugada.  Que ele tenha boa sorte no seu futuro, em seu projeto de se tornar uma lenda.

Não odeiem Brock Osweiler, eu desejo tudo de bom para ele.

Aliás, desejo tanto, que quero muito que ele receba um abraço especial de boa sorte de Von Miller, Derek Wolfe e companhia quando vier a Denver jogar na temporada 2016. Ou vários abraços. Ele merece.

Voltemos a falar de quem quer continuar a jogar em Denver.

#GoBroncos!