Aspectos do jogo VII: Avaliando o Quarterback

Na continuação da série Aspectos do Jogo, este post vai tratar da posição mais importante de qualquer time de futebol americano: o Quarterback. Se você quiser dar uma olhada nos artigos anteriores da série, confira a lista completa de todos os assuntos já abordados.

Quando analisamos a posição de quarterback em comparação com qualquer outra posição no futebol americano, ou em qualquer outro esporte, os padrões e expectativas são únicos. O quarterback não apenas toca na bola em todos os snaps (sim, o Center também o faz), mas ele também tem o potencial de provocar o maior impacto em um time.

Enquanto passar a bola é o elemento mais importante para alguém ser um bom QB, a posição envolve muito mais aspectos do que “simplesmente” ser capaz de lançar a bola do ponto A ao ponto B. Os créditos do artigo abaixo vão para o amigo Luke, que posta como fusion10 no Mile High Report, a quem agradeço pela ajuda na montagem do conteúdo todo.

 

As Atribuições

Para entendermos melhor o universo dessa posição, trago uma lista de tarefas (algumas simples e outras nem tanto) que um quarterback deve ser capaz de realizar rapidamente em quase toda jogada:

Antes do snap
1) Conhecer sua situação. Down, distância para o 1st down/endzone, tempo de jogo, pedidos de tempo disponíveis, placar;
2) Comunicar (e às vezes decidir) com rapidez e clareza a próxima jogada para o resto do ataque;
3) Se assegurar que todos do ataque se alinharam corretamente de acordo com o combinado;
4) Ler a defesa e interpretar suas intenções;
5) Mudar a jogada se houver alguma que possa explorar melhor as fraquezas percebidas na formação da defesa;
6) Identificar possíveis blitz de defensores e continuar se comunicando com os receivers e backs;
7) Usar motions e contagem de snap adequada para manipular as defesas.

Há certamente outras coisas que um quarterback faz, mas acredito ter citado todas as mais comuns antes do início da jogada.

Com 1 a 3 segundos após o snap
1) Controlar o snap feito pelo center, quer o QB esteja atrás dele ou em formação shotgun;
2) Ter um jogo de pés adequado e fakes com as mãos adequados para fingir um movimento de passe ou de handoff para algum halfback;
3) Se a jogada for um passe, fazer a leitura de 2 recebedores principais combinados, ou executar o handoff se for uma corrida;
4) Se a jogada for um passe e um dos 2 recebedores verificados estiver em condições de receber a bola, plantar os pés com firmeza e fazer o lançamento com um movimento fluido, lançando a bola longe dos recebedores e numa posição que permita ao recebedor correr e ganhar mais jardas após receber o passe;
5) Se houver um defensor extra perto do alvo designado, usar alguns fakes (como o pump fake ou olhar para outro lado) para tentar iludir esse jogador e tirá-lo de perto da jogada;
6) Se algum defensor criar pressão no pocket, se mover para encontrar um espaço vazio e evitar um sack;
7) Enquanto isso, manter seus olhos no downfield usando um trabalho de pernas adequado que permita ter uma posição para fazer um passe preciso.

No restante da jogada
1) Depois de evitar os rushers da defesa, fazer a mecânica de passe completa para o primeiro ou segundo alvo lido como tendo possibilidade de receber um passe;
2) Se os 2 alvos primários não estiverem disponíveis, continuar a checar as outras opções;
3) Se outro dos recebedores estiver apto a receber o passe, fazer o lançamento para ele;
4) Se ninguém estiver aberto, fazer o scramble para extender a jogada ou jogar a bola fora pela lateral após sair do pocket, para evitar assim uma jogada negativa de sack, fumble, ou forçar um passe podendo ser interceptado.

 

Apesar de nem todas essas coisas acontecerem em todas as jogadas, a maioria delas sim acontece e o quarterback precisa saber processar toda essa informação em um período curtíssimo de tempo.

Ele deve ser capaz de executar todas essas tarefas com eficiência e suvidade para ter maior produção que aqueles que lutam com certas nuances da posição. Um dos meus preferidos de todos os tempos na execução conjunto todo sem dúvidas é o Joe Montana.

 

Como avaliar os quarterbacks?

O melhor jeito é estudar os vídeos, mas isso requer que o observador saiba a jogada que foi desenhada pelo ataque, o objetivo daquela jogada, o esquema de bloqueios usado, as tendências dos recebedores, a comunicação entre o quarterback e o ataque, e é claro os fundamentos da mecânica correta de passe.

O torcedor comum pode não perceber quando um erro acontece. Seja uma rota errada, um problema de timing, um overthrow, um bloqueio perdido, ou qualquer outro tipo de problema. Os erros não são apenas do quarterback.

Algumas vezes os erros ou performances abaixo do esperado são escondidos pela ótima performance de outros companheiros do time. Para fazer uma correta avaliação do jogador e seu impacto no ataque, é preciso que o observador realmente se prenda ao objetivo primário e preste atenção aos menores detalhes.

Apesar de algumas pessoas serem mais treinadas e poderem fazer isso com mais eficiência que outras, nem mesmo elas podem apenas assistir o vídeo como se fosse um filme e tirar suas primeiras impressões. Esse processo requer que se assista individualmente cada snap de um quarterback na temporada, se você quiser realmente saber o quão bom ele é.

Além do Peyton Manning nesta temporada, eu não sei quantos dos torcedores do Broncos teriam vontade de fazer isso para nomes como Tom Brady, Aaron Rodgers, Drew Brees, Andrew Luck, RGIII, Cam Newton, etc. Tirando o quarterback do seu time, você provavelmente vai perder a gigantesca maioria das jogadas de todos os outros QBs da NFL.

Os highlights não contam, porque só mostram os momentos bons e não todas as jogadas. Por esse motivo, a mídia é capaz de ressaltar ou afundar um jogador com facilidade, além de ignorar outros tantos, devido ao pequeno mercado do time que jogam.

 

Uma solução

Repare que eu disse “uma solução” e não “a solução”. Todos os torcedores processam informações, discursos e imagens de modo diferente. Todos nós assistimos um jogo de futebol americano sob uma ótica única. Esta é uma solução criada para ser usada por todos os torcedores de acordo com suas preferências, caso queiram aprender mais sobre um time ou jogador específicos.

a) Assista tantos jogos quanto for possível. Se você só puder assistir os highlights, tente olhar as jogadas de todas as diferentes perspectivas que você conseguir, para ter uma idéia melhor do que aconteceu naquela jogada. Quanto mais jogos você assistir, mais os padrões irão ficar perceptíveis sobre aquele time ou jogador, e você vai começar a notá-los todos;

b) Tente manter uma nota mental das jogadas-chave, sejam positivas ou negativas;

c) Ignore o máximo da mídia que você conseguir. Lembre-se que a mídia é um negócio e eles são muito bons no que fazem. O objetivo deles é trazer o máximo de espectadores possível os seguindo;

d) Use as estatísticas corretas quando (e se) elas forem apropriadas. Isso significa que você precisa saber quais delas tem a melhor relação com o sucesso e são importantes para se avaliar um jogador ou seu time. As estatísticas não mentem, mas a maioria das pessoas as usam incorretamente atribuindo ou muito ou pouco valor a elas. Por exemplo, só porque um QB completou 65% dos seus passes, isso não o torna melhor que outro QB que tenha completado 62%, nem mesmo o torna mais preciso.

 

A estatística das 300 jardas por partida

A maioria das pessoas se apega aos QBs que passam para mais de 300 jardas por jogo como o principal quesito para avaliar quem são os melhores. No entanto, dando uma olhada nos números completos da carreira inteira dos 37 QBs que foram titulares da NFL ano passado, eu descobri algumas coisas peculiares quando se trata de como esse número se relaciona com o sucesso de um quarterback. Vamos dar uma olhada melhor nisso:

– A média geral de vitórias dos QBs que passaram para mais de 300 jardas numa partida foi de 58.8%, então lançar para 300 ou mais jardas puramente tem pouca relação com o sucesso. Uma outra das estatísticas mais usadas é a dos turnovers. Times que vencem as batalhas de turnovers num jogo ganham a partida em 80% das vezes. Um aumento bastante significativo dos quase 60% “puros” de vitórias dos que “apenas” lançaram +300 jardas;

– A maioria dos quarterbacks que devem entrar para o HOF tem uma porcentagem boa de vitórias nos jogos em que passaram para +300 jardas, mas também uma número de jogos maior com essa marca atiginda em comparação com os QBs mais jovens. Tom Brady lidera a marca com impressionantes 87% de vitórias nesses jogos, com uma marca de 39-6. Drew Brees (42-15, 74%) e Peyton Manning (38-25, 60%) são os únicos QBs com ao menos 40 jogos de +300 jardas;

– QBs com menor margem de chance de se juntar ao HOF tem resultados confusos quando lançam para mais de 300 jardas. McNabb é o melhor do grupo com uma marca de 24-7, 77%. Apesar de eu não achar que ele tenha talento de Hall of Famer, ele foi muito bem durante sua carreira. Philip Rivers tem a maior porcentagem entre a famosa classe de 2004, enquanto Ben Roethlisberger e Eli Manning nunca conseguiram tantos benefícios de se passar para +300 jardas por jogo como as pessoas costumam pensar. De novo, se trata de eficiência e não volume. Veja que o Big Ben tem uma grande porcentagem de vitórias quando passa para menos de 300 jardas (67-26, 72%). E o Eli Manning é o que mais consegue vitórias (30-17, 64%) quando passa para menos de 200 jardas. Apesar de ele ter conquistado 2 Super Bowls, ele nunca foi um excelente QB, exceto por um punhado de jogos;

– A maioria dos quarterbacks jovens tem dificuldade para vencer jogos quando passam para mais de 300 jardas. Isso acontece por 2 motivos principais. Primeiro, a maioria desses QBs é draftado por times ruins que precisariam de mais ajuda, em sua maioria no lado defensivo da bola. Em segundo, porque a maioria deles ainda não é capaz de lidar com a pressão e as responsabilidades de se orquestrar o jogo aéreo num nível grande em termos de volume. Esses QBs mais jovens precisam de boas defesas e jogos corridos sólidos para ajudá-los a vencer no começo de suas carreiras, e isso raramente ocorre. Um grande exemplo deles na temporada passada foi o Cam Newton;

– Claro que há excessões e alguns dos QBs conseguem uma boa porcentagem de vitórias em jogos que passam para +300 jardas. Dois exemplos são o Joe Flacco e o Matthew Stafford. O Flacco, no entanto, raras vezes atinge essa marca (ele consegue em apenas 12,5% dos seus jogos) e tem dificuldades em ser a referência do ataque do Ravens. Em comparação com ele, o Stafford consegue a marca em 31% dos jogos e aparenta maior capacidade para ser eficiente quando o volume do seu trabalho sobe.

 

Espero novamente que este artigo tenha ficado simples e claro, e que tenha feito você pensar a respeito da posição de quarterback na NFL. Se você tiver alguma dúvida, sugestão ou quiser acrescentar algo, fique a vontade.

GO BRONCOS!

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