Aspectos do jogo VI: A Linha Ofensiva

Fazendo mais 1 post da série Aspectos do Jogo, é hora de nos aprofundarmos um pouco na Linha Ofensiva de um time de futebol americano. Se você quiser dar uma olhada nos artigos anteriores da série, confira aqui a lista completa de todos os assuntos já abordados.

Vamos entender um pouco sobre o papel de cada jogador de linha ofensiva e saber como eles se encaixam no sistema do Broncos.


A importância da direita

Vamos começar pensando num sistema comum de ataque. É fácil perceber que a maioria das jogadas de corrida são para a direita do center e existem muitos motivos para isso.

Primeiro, estamos num mundo onde a grande maioria das pessoas é destra (aproximadamente 85% da população mundial). Nós lemos para a direita. No protocolo militar, o oficial anda para a direita e o lado direito é o reservado para a bandeira. Até mesmo nas batalhas antigas, os melhores lanceiros de uma formação eram alinhados à direita.

No futebol americano, chamamos de strong side (lado forte) o lado em que o TE se alinhar (quase sempre é o lado direito). Isso está tão arraizado no nosso psiquíco, que até mesmo as emissoras de tv chamam erroneamente o lado direito de strong side nos ataques independente de observar onde se alinhou o TE / slot. Conta ainda a favor disso o fato de QBs destros ficarem virados para a direita e o movimento do corpo também facilitar as jogadas para esse lado.

As corridas vão mais vezes para a direita e também para o meio, mas isso não quer dizer que outras rotas são inferiores. Na geometria euclidiana, a distância mais curta entre dois pontos é sempre uma reta. Mas nas corridas de futebol americano, as feitas por pelo edge tem uma maior probabilidade de grande avanço, embora isso aconteça com bem menos frequência.

Corridas para o lado esquerdo são utilizadas como fator surpresa ou para se tirar vantagem de uma falha de leitura da defesa. No entanto, os melhores run blockers se encontram no lado direito da linha e isso também ajuda a fazer com que a maioria delas seja para aquele lado. No lado esquerdo da linha estão os melhores pass blockers, já que eles protegem o lado cego do quarterback.

Com esses pontos colocados, podemos agora examinar o papel individual de cada jogador da linha ofensiva.

 

O papel individual de cada jogador da OL

O Center tem um problema único. Ele precisa movimentar a bola para trás para o QB enquanto mantém sua habilidade tanto de conter um pass rusher ou fazer pressão num esquema de bloqueios para corridas. Não há margem para erros, pois qualquer snap errado pode resultar num turnover.

O C não apenas precisa fazer o movimento perfeito de snap todas as vezes (com adversários praticamente caindo emcima dele) como também é o jogador mais perto da bola, do QB e, muitas vezes, do caminho para uma corrida entre os tackles.

Como se não bastasse, ele frequentemente precisa ler os alinhamentos dos pass rushers (o QB o ajuda nessa função, mas como os QBs são sobrecarregados com outras inúmeras responsabilidades, o C lê melhor a DL).

Nos dias de hoje, dizemos que a principal posição na linha é a de LT, mas se considerarmos o trabalho de um center, ele deveria receber os créditos como o âncora da OL.

Para ser o melhor bloqueador de jogo corrido, o Right Guard é o jogador escolhido para a função. Como vimos acima, a maioria das corridas são para a direita e, com o C já bastante ocupado com o snap e leituras, o RG tem como objetivo primário abrir um espaço grande para o corredor.

O Right Tackle é geralmente menos habilidoso que seu oposto Left Tackle e ambos tem a tarefa de defender os defensive ends e blitzers pelo edge. O LT precisa de mais qualidade por algumas razões:

1. O blind side (lado cego) do QB é do seu lado esquerdo na maioria dos casos;
2. O lado direito da OL geralmente recebe ajuda (geralmente ali se alinha um TE);
3. As defesas costumam tentar aproveitar a falta de visão do QB no blindside para alinhar seus melhores pass rushers (tanto DEs quanto OLBs) deste lado.

Em contraste ao conceito de “menos qualidade” para o RT, isso se aplica para o Left Guard (já que menos corridas são para o lado dele). Antes que vocês me odeiem por usar termos como “mais qualidade” ou “menos qualidade”, vale notar que já que o LT é o melhor pass blocker e o RG é o melhor run blocker, isso faz com quem o LG e RT sejam usados como uma espécie de coringas na OL.

Em outras palavras, o LG e o RT podem não ser os especialistas em pass ou run blocks, mas eles geralmente precisam realizar bem as duas funções para compensar a especialidade do seu oposto.

 

O que muda para QBs canhotos?

Os times invertem esses jogadores quando possuem um QB canhoto? Surpreendentemente a resposta é não, na maioria das vezes.

Enquanto qualquer guard ou tackle possa se mover para o outro lado da linha, anos de prática os tornam mais habituados em bloquear naquela determinada posição (em termos de mecânica do corpo, equilíbrio, antecipação de certas nuances dos jogadores de linha defensiva – que assim como um OL, também tem certas preferências de alinhamento).

Além disso, como os jogadores de linha ofensiva atuam como uma unidade, coordenando seus bloqueios em tempo real e não apenas seguindo um script pré determinado, embaralhar os OLs poderiam causar um efeito de romper todo o entrosamento deles construído ao longo dos anos.

É importante para eles saber o que o companheiro à sua direita e à sua esquerda vai fazer em cada situação. As corridas ainda vão para a direita, e o lado de orientação do ataque continua o lado direito.

Os WRs e TEs não devem mudar suas rotas (e o playbook que tem na sua cabeça) por uma questão de orientação motora de apenas um jogador, mesmo que este seja o QB. E por mais que a defesa faça o planejamento de jogo de uma maneira diferente quando enfrenta um QB canhoto, suas posições e alinhamentos em campo também não mudam por esse motivo.

Considere também que, a menos que um time tivesse um elenco cheio de canhotos, colocar um destro no time para substituir um canhoto com tantas alterações na linha ofensiva seria o caos. Mesmo para um QB, o técnico não pode mudar todas as outras posições do time. Existem pequenas nuances no trabalho de todo jogador de um time; e fazer uma mudança simétrica de alinhamento e responsabilidades dele seria de uma grande dificuldade.

Em outras palavras, um QB canhoto não inverte o ataque de lado para um jogo “espelhado”. Ao contrário, mantendo tudo exatamente no modo padrão, um QB canhoto pode mudar toda a dinâmica do jogo com chamadas inesperadas.

 

Impacto em Denver / Ajustes de QB

Nossa linha ofensiva sofreu muito impacto ano passado, pela juventude e pouco tempo de experiência dos seus jogadores. No entanto, o sistema de bloqueios que usamos (Zone Blocking Scheme) proporciona um tempo de ajuste bem menor.

Outro fator que ajuda no desenvolvimento da nossa OL é o sistema de 2 TEs que usamos, e os passes screen rápidos para os edges, o que faz com que os coordenadores defensivos mantenham seus LBs mais conservadores, ao invés de atacar o meio da OL com eles.

Ano passado tivemos um quarterback muito móvel chamado Tim Tebow e portanto não precisamos usar o FB Larsen para bloquear pelo meio. Como o Tebow não está mais em Denver (foi trocado antes do draft para o Jets), não vou gastar nosso tempo com este debate. O objetivo é aproveitar o exemplo de um QB canhoto para enriquecermos o assunto. O importante é ressaltar que um FB que cuide de blitzers pelo meio é importantíssimo para dar suporte à linha ofensiva.

Os coordenadores defensivos seguem uma regra de ouro quando se trata de como fazer uma blitz em um QB. Os QBs móveis são perigosos se eles conseguirem sair do pocket, então o ideal contra jogadores como o Tebow é atacar os edges para evitar que ele tenha espaço para se movimentar. Por outro lado, os pocket passers são melhores quando sua OL consegue proporcionar um pocket limpo e ele pode ficar ali para ler o campo. Para atacar os pocket passers, os DCs se utilizam de pressão pelo meio para fazer com que o QB tenha que se mover do seu ponto de segurança.

A força atualmente da linha ofensiva do Broncos encontra-se nos seus tackles. Enquanto o LT Ryan Clady é um Pro Bowler e um dos melhores bloqueadores contra passe da liga, o RT Orlando Franklin foi muito bem nesta função além de ter sido um monstro bloqueando para corridas. Como o ponto fraco da linha é o miolo dela (LG e C), exploramos bastante os scrambles do Tebow para muitas jogadas de bastante avanço.

Com o Peyton Manning recebendo os snaps, voltaremos ao nosso ataque tradicional (como também era com o Kyle Orton), espalhando a defesa tanto vertical quanto horizontalmente para abrir espaço para as corridas. Lembre-se que já citamos que os screen passes são uma arma excelente para manter as defesas honestas.

O jogo de futebol americano é muito rápido e violento no nível profissional da NFL. A diferença da liga para o college também ocorre no nível de inteligência dos jogadores. Por exemplo no caso do Tebow, ele não tem uma mecânica adequada de um QB passador, que requer que ele mantenha a bola numa altura próxima à sua cabeça. Isso só funciona na NCAA, onde as defesas demoram mais tempo para se aproximar do QB, e onde os técnicos tem menos tempo para desenvolver seus QBs (por causa do pouco tempo que passam com eles).

Ainda assim, existem QBs que saem do college com boas mecânicas de passe? Claro que sim. Mas frequentemente na NFL os QBs podem se sair bem ou não independente do que aprenderam na NCAA. A incrível habilidade do Peyton Manning de rastrear múltiplos WRs ao mesmo tempo compensaram a sua mecânica de quando se tornou profissional. O mesmo vale pra John Elway e a grande habilidade atlética que ele tinha. Ao mesmo tempo, jogadores que chegaram com uma mecânica limpa e adequada já fracassaram nesse nível do jogo.

 

Seria impossível falar da linha ofensiva sem fazer tantas referências ao quarterback, mas em breve teremos um post específico dedicado a essa posição. Espero que este tenha sido um artigo simples e esclarecedor sobre os aspectos da OL de um time, e também do Broncos. Se você tiver alguma dúvida, sugestão ou quiser acrescentar algo, fique a vontade.

GO BRONCOS!

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